segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O que me disse Matuzalém


Crônica de Célio R. Siqueira


Diz o doutor que é vesícula preguiçosa. Eu, porém, com toda a minha fabulosa ignorância, acho que a coisa é mais da idade e do calor do que daquela pobre coitada. O fato é que quando chega ali pela uma hora da tarde e resolvo passar os olhos no jornal do dia, me invade uma tal onda de sono, tão rápida e tão feroz, que até parece tinta em mata-borrão.


Hoje, enquanto cogitava repoltreado, como diria o Eça, numa das poltronas do escritório, sobre o assunto da crônica da semana, ele chegou. Pegou-me exatamente no momento em que eu acabara de ler um informe mandado gentilmente por um meu amigo de Ribeirão Preto sobre um médico que está fazendo maravilhas na recuperação de idosos, que saem de suas mãos totalmente recauchutados, prontos para mais alguns milhares de quilômetros...


Pegou-me, repito, fechou-me lentamente os olhos, balançou-me docemente numa rede de nada e assim fiquei um segundo, um minuto, uma eternidade, não sei. De repente, abro os olhos e vejo sentado na outra poltrona, à minha frente, um sujeito vestido de maneira estranha, à semelhança daqueles que aparecem em gravuras do tempo dos assírios, dos persas ou dos gregos de Homero.


Era velhíssimo, enrugado e barbudo. Surpreendi-me comigo mesmo por não me ter assustado em vê-lo ali, vindo não sei de onde e tão confiado como se a casa fosse a sua. Fitava-me. E, sorrindo ao me ver de olhos abertos, disse-me em bom português:


— "Boa tarde. Eu sou Matusalém." Ajeitei-me na poltrona e respondi-lhe: "Mas não o da Bíblia, não é?" — "Sim senhor, o mesmo, o que viveu 969 anos." — "E o que o senhor veio fazer aqui?" — "Conversar", respondeu-me, repetindo o sorriso inicial.


Eis uma atividade que me agrada e portanto gostei da idéia: — "Pois não, sr. Matusalém, às suas ordens, pode puxar o assunto." O velho cruzou as pernas, olhou-me em silêncio alguns instantes e, assumindo um ar envergonhado, perguntou-me medrosamente: — "Que acha da minha idade?" Lembrei-me dos seus 969 anos e, sem tempo de estudar uma resposta, soltei-lhe esta: "Bonita! Muito bonita idade!" — "Bem feito, muito bem feito!" — exclamou tristemente o velho — "é isso mesmo o que eu mereço: "Bonita idade", é a única coisa que se pode dizer de mim.


Você, posso chamá-lo de você? — fiz-lhe que sim — você já pensou o que é uma pessoa viver 969 anos e verificar no fim que tudo o que se pode dizer dela é isto: "Bonita idade"? Julguei-o ofendido e tentei desculpar-me: "Bem... não é tão pouco assim. 0 senhor é célebre. Está na Bíblia, É filho de Enoque, aquele que o Senhor tomou para Si: e o pai de Lameque; avô, portanto, do celebérrimo Noé, o da Arca. E não se esqueça de que o senhor é campeão. É o que viveu mais de toda a turma de macrobios que lota o capítulo 5 do Gênesis..." — "Campeão de quê? de nada! O que é que eu fiz, afinal de contas? Vivi, gerei, gerei, vivi. Só. E isto durante quase mil anos. Você já sabe o que é viver um milênio?" — e o velho tamborilava os dedos nervosamente nos braços da cadeira. Inspirou profundamente e continuou:


— "Não queira saber a inveja que tenho de vocês, felizardos que são com os seus setenta ou oitenta aninhos bem vividos e depois... ponto final! Pois do resto "o melhore canseira e enfado" como dizia o Salmista. Meu rapaz, não se iluda: esta história de viver 969 anos é uma estopada. Quando a gente chega aos 100, já descobriu que a vida é uma eterna repetição.

E a antecipada certeza do que vai acontecer amanhã, no ano que vem, no século que vem, gera dentro de nós um tédio tão terrível que mesmo o gênio do Dante — este garoto privilegiado que morreu aos 56 anos — não foi capaz de imaginá-lo para o seu famigerado inferno. Minha visita não é uma casualidade, não.


É um aviso. Ando preocupado com vocês, por causa dessa ânsia maluca que os contaminou de querer viver mais, sempre mais, recorrendo para isso a toda sorte de poções, mezinhas, drágeas, nacionais ou importadas, correndo atrás do primeiro que aparece, aqui, na Áustria, na Rumânia, no Japão, seja lá onde for, inclusive Ribeirão Preto — atrevida alusão — com ofertas mirabolantes e a preços razoáveis — de um elixir de longa vida mais eficaz do que a Fonte de Juvênia buscada inutilmente no século XVI nos sertões da Flórida por Ponce de Leon — aquele velho imbecil.


— Quem compreendeu bem este assunto foi o Sartre — aquele do existencialismo, você sabe — na sua comédia "Entre quatro paredes". O Inferno de Sartre é um palácio luxuoso, de apartamentos com todo o conforto, vivendo em cada um deles três ou quatro pessoas de sexos opostos, de idéias diferentes e gostos instáveis. A princípio acham o inferno delicioso. É só apertar a campainha e o criado aparece para servi-los.


E só mais tarde, depois que completam o círculo de desentendimentos e experiências amargas e voltam ao ponto de partida para recomeçar tudo outra vez, certos de que o próximo final será apenas o prelúdio de uma nova repetição, numa sucessão infindável por toda a eternidade, é que sentem o horror que há naquele inferno que a princípio chamaram delicioso. Ouça lá, meu caro. Ainda há pouco você disse que eu estou na Bíblia. Pois bem. Você já se esqueceu de que Davi, Salomão e Ezequias também estão? E a experiência deles não vale nada?


Tivesse Davi morrido mais cedo e seria tão-somente o "ruivo mancebo de gentil aspecto" vencedor do gigante Golias: seria a vítima magnânima do ódio de Saul: seria o matador de ursos e leões na defesa dos rebanhos de Jessé. Foi a velhice que o fez fugir, subindo e chorando pelo monte das Oliveiras, com a cabeça coberta e de pés descalços, para escapar à fúria assassina do seu filho Absalão.


Triste fim para um grande rei. E Salomão, seu filho e sucessor? Na juventude escolhe como o supremo dom a Sabedoria. E é na velhice que descamba para a luxúria e idolatria, fazendo "o que parecia mau aos olhos do Senhor", como se lê no capítulo 11 do livro Primeiro de Reis. E Ezequias?... Este então foi o mais insensato de todos. Depois de se notabilizar pelo seu valor, sua bravura, sua piedade, depois de fazer tudo "o que era bom, e reto, e verdadeiro perante o Senhor seu Deus", Ezequias adoeceu para morrer.


E foi tal o seu pavor, foi tamanha a sua angústia, que o Senhor lhe deu de presente mais 15 anos de vida. E para que? Diz o Segundo livro das Crônicas que não correspondeu Ezequias ao benefício que se lhe fez, porque o seu coração se exaltou". Aqueles 15 anos a mais foram causa de males terríveis que se abateram sobre o reino de Judá pouco tempo depois da morte de Ezequias."


Fazendo-me com a mão um gesto para que não perturbasse a pausa para respiração, o meu visitante prosseguiu: "Aí está em que deu viver demais. Muito mais viveram os que morreram mais cedo, como Alexandre Magno, conquistador do mundo, morto aos 33 anos; Pedro I, o de vocês, herói de 2 mundos, morto aos 36; e mesmo morrendo Aníbal com 63, César com 56 e Napoleão com 52, que é isto em presença dos meus 969?


Não, meu rapaz, não escreva uma palavra que seja de propaganda de qualquer sujeito que se ofereça a prorrogar indefinidamente a velhice e nem faça a menor referência a produtos naturais ou artificiais saídos dos mundos vegetal e mineral que prometam uma eterna juventude. Ainda que fossem verdadeiros, não valeria a pena.


Você conhece o verso de Guilherme de Almeida em "Esta Vida"? — "A Ciência, se fôssemos eternos,num transporte de desespero inventaria a morte"? Recusei-me. Disse-lhe francamente que tenho intenções de escrever a respeito. Zangou-se. Pôs-se de pé. Gritou que ia telefonar ao neto para que este me negue um lugarzinho na Arca. "Vou telefonar! Vou telefonar", berrava. Comprimi-me na cadeira procurando escapar da sua fúria... Salvou-me a campainha do telefone, intermitente mais insistente.


Agarrei-o: — "Alô? é o "Seu" Noé"? Não, não era, felizmente: A dona Vulcana queria falar com a dona da casa...

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