
Trecho do livro "Os meus dias" do Rev. Lázaro Lopes de Arruda
Itapeva 1953 a 1960
Após as formalidades constitucionais preconizadas pela Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil, recebidas e aprovadas pelo Presbitério, a tese e a exegese, preguei o sermão exigido para a licenciatura.
Templo cheio, elaborada a liturgia pelo Presidente, subimos ao púlpito. Foi indescritível a emoção! Candidato jovem, idealista, cheio de esperança, encontrou seleto auditório. O meu texto foi o de Tg. 1:27 - A Religião Pura.
Ressaltei os elementos textuais: 1) Ato de caridade para os que sofrem; 2) A busca da santidade de vida. Ressaltei um terceiro elemento que julguei oportuno - Religiosidade que agrada a Deus.
Na crítica, observaram que o último elemento era a tese, o tema, havendo no caso ligeira confusão. Pediram-me explicação. Defendi a estrutura do sermão dizendo que me importei em reiterar estes elementos do texto, e que ali estavam.
Não pensei que isso atropelaria e nem prejudicaria o sentido do texto. Eles aprovaram o sermão. E assim fui licenciado no dia 11 de janeiro de 1953, pelo Presbitério reunido no Templo da Igreja Presbiteriana, minha Igreja de origem, sendo o primeiro ministro que surgia desta briosa comunidade cristã.
O Presbitério debatia os seus problemas. As Comissões desempenhavam as suas tarefas. A Comissão de divisão de campos fazia uma forte discussão. Os dois candidatos à ordenação, agora licenciados, Francisco Xavier da Cunha e Lázaro Lopes de Arruda, estavam ocupando o centro das discussões. Soando a campainha para o lanche, emocionei-me ao pensar que no fim de semana começaríamos uma nova fase, e eu já preparava o sermão para o primeiro domingo no novo campo de luta, na paróquia principal, sede deste mesmo campo.
O Presbitério era de um imenso território. Para o sudoeste fazia divisa com o Paraná e, às margens do Ribeira, para cima, limitava-se com a legendária Itararé. Voltando para leste, atingia "a Sorocaba dos tropeiros".
Para o norte, vinha se defrontar com as montanhas ou serranias de Bofete e Botucatu. A sorocabana cortava, com seu eixo ferroviário, as regiões de Sorocaba, projetando-se para noroeste até o planalto de Cerqueira César, um ramal que conduzia para Itararé, de onde se espraiavam as campinas verdes, tarjadas do verde-escuro de restingas de matas.
Foram as campinas bordejadas pelos cascos das alimárias de Antonio Pedro de Cerqueira Leite, José Zacharias de Miranda, João Paulo de Camargo e dos evangelistas, que se iam em busca de crentes e interessados na fé.
Lá, entre colinas e pedreiras, desenhava-se na paisagem, com casarios esparsos, a famosa "Faxina" - hoje a progressista Itapeva. Ali, sobre uma rocha, na última elevação, consta que o pioneiro, Rev. Antônio Pedro de Cerqueira Leite, apeava-se da sua cavalgadura exausta, ajoelhando-se, em prece, pela cidade, cheio de preocupações e amargura, um solitário que poderia nem ser recebido. Era 1875.
Havia dois campos difíceis que, desde os velhos tempos, eram percorridos a cavalo e à pé; e nos nossos dias, há 40 anos, eram servidos por ônibus velhos que nem sempre chegavam ao destino.
Muitas vezes, as jornadas eram completadas à pé, e outras tantas vezes a melhor condução era o lombo dos burros e dos cavalos. Quando não chovia, era tão divertido... Apiaí e Itapeva. Dois campos, dois licenciados.
Voltemos ao Presbitério.
Nos primeiros debates, após o almoço, a Comissão veio prestar relatório ao plenário. Foi então que vi aquele homem extraordinário, presbítero da Igreja em Itapeva, representante do seu Conselho, o Sr. Izaltino Pereira Vasconcelos, coletor da Receita Federal da cidade.
Veio ele ao meu encontro, suarento, com andar cansado, como um homem gordo que era, saindo da última refrega, da eloqüente Comissão, exclamando felicíssimo: "Rev. Lázaro, quebrei lança, mas consegui. O Sr. irá conosco para a Igreja de Itapeva".
Já me chamava de reverendo. Em Itapeva, fui conhecer os presbíteros velhos Jeminiano David Müzel e Glycério David Müzel, dois grandes companheiros, que já estão com Deus.
Era tal o contentamento dele que me senti confuso e sem entender. Como teria dado certo de ficar no campo em que era pastor o meu grande amigo Rev. Waldemar e, agora, receber como um presente a Igreja em que era presbítero o outro grande companheiro, Izaltino, que me ofereceu, de pronto, a sua casa para a minha morada, até que dentro de três meses tivesse a minha própria casa?
Era muita honra já ser considerado reverendo por aquele simpático presbítero. Era mesmo honra demais. Por outro lado, senti um impulso vocacional intenso confirmando o meu chamado para a mais excelente das carreiras. O tempo era diferente dos dias hodiernos, havendo mais comunhão e também mais elevação mística.
O Rev. Francisco foi para Apiaí, o campo mais difícil, mas de gente tão amável, o suficiente para sentir, o colega com a sua esposa, Ondina, o fascínio da amizade daquele povo. Ali o visitei uma vez. Lá estavam numa Igreja já poderosa, cercada de simpatia e de bem-querença.
Tanto é assim que Ondina despediu-se em lágrimas quando deixou a cidade, ao lado do seu esposo, comovidos e abraçados pelos crentes. Com isto, a nossa vocação acrisolava-se com as aflições e o amor.
Nós, os licenciados, claramente sentimos as mãos de Deus em nossas vidas, o que reconhecíamos nos contatos e diálogos que tivemos posteriormente. Cada qual, contando a sua experiência.
Servi a Deus em Itapeva no período de sete anos com os seis meses de licenciatura. Foi a primeira fase de um ministério muito feliz. Casei-me e fui para lá. Irma Helena, ao meu lado, colaborava no trabalho de visitação diária, mesmo durante a gravidez da primeira filha.
E fazia comigo consideráveis jornadas à pé. Desfrutou em Itapeva, como em toda a peregrinação, de profundas amizades. Era mais rodeada de atenções que o marido. Chegou a desempenhar, quando só tinha os dois primeiros filhos, o cargo de Presidente da SAF e, depois, Diretora da Liga Juvenil.
Irma cuidava da limpeza da casa, lavava e passava roupa, visitava os crentes com o marido. Era ativa na SAF, marcando com presença a Escola Dominical e os cultos. Na Escola Dominical, ganhou um prêmio por não ter faltado, em um ano, com uma ausência sequer.
Cedo, começou a sentir um abalo da saúde - depois de ter sido mãe cinco vezes. E preciso notar que, na administração do lar, via-se em apuros com o salário irrisório, num tempo em que dizimista era uma raridade e as Igrejas contavam com uma tesouraria anêmica.
Tempo das "vacas magras"! Além disso, colaborou com Deus no ato de abençoar os meus dias. A nossa dedicação - se não exagero a falar de nós - era extrema. Casamo-nos no dia 2 de maio e, no dia 4, já estávamos na cidade por ocasião do aniversário da Igreja.
Férias, gozávamos quando íamos receber um novo bebê, e de Itapeva íamos à Tatuí, na casa do sogro. Praticamente não tivemos lua-de-mel, em bonitos passeios. Sem dinheiro, a vida é diferente. Amor era sempre o nosso melhor tesouro!
Itapeva ficou em nossos corações. Recebíamos aproximadamente 25 pessoas no rol somente na sede, durante um ano de trabalho, sem falar nas transferências. Pontos de pregação daqueles sete anos hoje são Congregações e Igrejas. Havia uma bela mocidade, um excelente coral, em que atuavam esplêndidos cantores, organistas e pianistas de grande habilidade.
Lembro-me com saudade dos Müzel, dos Moura, entrosados por matrimônios. Lembro-me ainda dos Camargo, dos Kirchner e dos Braatz, dos Moraes e dos Martho... Recordo os nomes e lares, os problemas e as vitórias.
Graças a Deus!
Em todo o campo, granjeei fiéis amigos, como, para não me alongar, os Rodrigues de Morais. Lembro-me do Gamaliel, com gratidão! Não me esqueço do Levy e de outros seus irmãos.
Logo de início, fui eleito Presidente do Presbitério, ainda bem jovem, tendo duas ou três reeleições. A nossa casa vivia cheia de amigos. A mocidade da Igreja fazia muitas reuniões na casa pastoral. Vivíamos quase sempre cansados, mas a paz morava e ainda mora conosco, graças a Deus!
No campo de Faxina, fui pastor e organizador da Igreja Presbiteriana em Barreiros e me tomei amigo e hóspede dos Monteiros, dos Camargos, de cujo bairro guardo a saudade até do cântico afinado de um imponente galináceo de um deles, que faria inveja ao mais apreciado solista. O canto do galo ecoava pelas matas vizinhas e o seu eco morria nas montanhas próximas.
Desse bairro, penetrava pelo bairro dos Marcelinos a fazenda dos Correas, Barra do Chapéu e outros lugares de difícil acesso. Sentia, no entanto, nas longas horas solitárias, a presença de Deus.
(CONTINUAR)…